Ralph J. Hofmann
Não passa uma semana sem que eu receba de algum amigo algum e-mail explicando que foi descoberta a cura para alguma coisa, que devo cuidar ao receber um cartão de visita, pois pode estar impregnado com poderoso sonífero que vai facilitar a bandidos roubar minha carteira e meu carro, que devo comer isto ou aquilo para evitar não sei o que mais.
E o pior são as fotos de crianças desaparecidas ou senão que estão precisando de uma vitamina que custa mil reais ao mês ou de uma viagem ao deserto do Gobi para obterem uma cura milagrosa.
O interessante é que freqüentando a Internet há uns 13-14 anos muitas estão passando por mim pela terceira vez. Apareceram em inglês, espanhol e português. O nome dos envolvidos muda. As qualificações dos médicos são explicitadas às vezes com nomes americanos, outras vezes com nomes espanhóis.
O estranho é que muitos destes e-mails falam que “aconteceu na semana passada”, mas não estão datados. O pessoal simplesmente altera textos com fotos patéticas e as passa adiante.
Recentemente recebi, não pela primeira vez, uma foto do papa João Paulo II e do Grão Rabino Meier Lau em que este teria contado ao papa em uma reunião, que fora devolvido à sua família ainda criança de colo, por uma senhora polonesa que cuidara dele para os pais que morreram no campo de concentração de Buchenwald por intervenção dele, o papa, ainda recém ordenado padre.
A primeira vez que recebi este e-mail achei interessante, comovedora, dois líderes religiosos terem se cruzado no passado desta forma.
Contudo alguns anos atrás eu assisti no Youtube uma conferência de Meyer Lau em que contava algumas vivências.
Meyer Lau foi o mais jovem sobrevivente de Buchenwald. Não tinha nove anos ao ser resgatado pelos aliados. Sobreviveu por fingir ser mais velho, mais forte e mais alto (subindo num montículo de terra que arrastou com os pés ganhando três polegadas antes de ser examinado pelo oficial nazista). Quando Buchenwald foi liberada o fato de ser o mais jovem sobrevivente tinha um sentido especial. Lau foi imediatamente contrabandeado para Israel e entregue aos seus tios que lá estavam desde os anos 30.
Ou seja, não era criança de colo e não foi entregue a uma senhora polonesa. E nem Karol Wojtila, o papa, havia sido ordenado padre nesta época.
O que aconteceu no encontro com o papa, contado por Meyer Lau no Youtube, foi que o papa e Lau, conversavam num momento menos oficial, em polonês, o idioma natal de ambos, e o papa lembrou o tempo, antes da guerra, em que via o avô de Lau, um Rabino Chefe da cidade caminhando rumo à escola religiosa acompanhado de um monte de netos brincando e conversando com o velho, extremamente carinhoso e bem humorado. O papa perguntou. “Quantos eram? Sempre os via, eram muitos, mas nunca os contei.”. A resposta: “Eram vinte e três”. E o papa: Quantos sobreviveram?” E a resposta: Eu, meu irmão mais velho e um primo.”
Certamente foi a partir dessa lembrança que alguém fabricou a tal história de Internet. A lenda é mais piegas e coloca o papa na condição de ter feito alguma coisa por Lau, o que seria desnecessário, pois há registros do fato de que Karol Wojtila realmente ajudou a salvar pessoas durante a ocupação alemã, apenas não Meyer Lau.
Na minha turma de amigos, alguns dos tempos de faculdade, alguns de infância virei o pesquisador de lendas da Internet. Aprendi a colocar a pesquisa da forma certa para obter resultados.
Posso depor que raramente sai algo de proveitoso dessas circulares. Algumas exceções até merecem ser mencionadas. Um artigo sobre o fato de que “cravos de defunto” afugentam os “aedes aegipti” e que o chá de sua flores e folhas faz com que episódios de dengue sejam mais curtos e menos sofridos, ou seja, o chá aceleraria o processo de eliminar a doença do corpo. Achei menção disto na medicina aiurvédica, e seria um dos aspectos desta medicina já analisados à luz da ciência. Parece que funciona.
Ontem recebi um e-mail sobre o efeito de óleo de coco. Parece que reverte em parte o Alzheimer. Há alguma indicação de que pode ser verdade, mas é cedo para ser taxativo, contudo mal não faz.
Na medicina as coisas são sempre mais vagas no início, mas sugiro que em termos de fatos ligados à história ou incidentes policiais não é tão difícil assim pesquisar um pouco antes de passar adiante um e-mail e contribuir para a confusão dominante.
Não poderia deixar de citar um dos casos mais idiotas que sempre volta aflorar. O da pastilha Mentos misturada com Coca-cola. O mesmo efeito explosivo é conseguido colocando um Aka-Selzer ou uma colher de açúcar no refrigerante. Aos meus 17 anos costumávamos entrar num bar, pedir uma Coca-cola, ir para uma mesa mais ao fundo, colocar um Alka-Selzer na garrafa e fechá-la com um preservativo “Jontex”.
Depois saíamos do bar e ficávamos olhando de longe enquanto as pessoas se escandalizavam com uma camisinha se inflando. Mas ninguém ataca o Alka-Selzer. Só a pastilha Mentos.
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