quinta-feira, 5 de abril de 2012

MONUMENTAL‏

Ralph J. Hofmann


Há tantos anos que nem gosto de lembrar li um livro de Manuel Komroff (*) chamado Big City, Little Boy (Cidade Grande, Menino Pequeno).

Neste livro o autor lembrava o que era crescer na New York de sua infância, quando a paisagem da cidade recém começava a ser dominada por arranha-céus.

A certa altura ele lembra os relatos de seu avô materno que saíra da Rússia em meados do século XIX fugindo do regime repressor do Tzar. O avô fora inicialmente para a França onde se empregara por quatro anos numa fundição, para juntar dinheiro e se reunir com a filha que imigrara antes para os Estados Unidos.

Na fundição passara grande parte do tempo trabalhando na remoção de rebarbas e polimento de um enorme pé de bronze.

Finalmente conseguira juntar dinheiro e fora para New York. Em 1886 foi inaugurada a Estatua da Liberdade, doada pela França aos Estados Unidos. Poucos dias depois da inauguração o avô de Komroff foi visitá-la. Na ocasião reparou no pé que aparece sobressaindo das vestes da estátua. Dizia sempre para o neto: “Lá estava eu na França fugindo da Rússia para a liberdade, e eis que eu estava durante quatro anos polindo as unhas da própria liberdade”.

Hoje o nosso Editor chefe me passou uma coleção de fotografias de um novo monumento. Este menos solene. A estátua de oito metros de Marilyn Monroe lembrando a cena icônica da atriz no filme “Seven Years’ Itch”( O Pecado Mora ao Lado?) em que seu vestido branco é levantado pelo ar deslocado através de um respiro pela passagem de um trem do metrô.

Estranhamente uma das fotos mostra um operário terminando de pintar as unhas da estátua. Manicuro de estátua como o avô de Komroff.

Pessoalmente achei o gigantismo da estátua pouco atraente. Preferiria o poster gigante de Anita Ekberg em Bevette Piu Latte do filme Bocaccio 70, em que a atriz toma vida como uma gigantesca mulher que persegue um tímido funcionário público italiano.




(*)1890-1974 – Romancista e ensaísta americano. Viveu a experiência do convívio com os principais artistas e escritores americanos em Paris na década e 20.

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