SOBRE CULTURA
Ralph J. Hofmann
O que chama a atenção no Brasil hoje é que se cultiva uma cultura sem embasamento.
Gasta-se fortunas promovendo a música que de qualquer maneira se ouviria nas ruas, rádios e TVs e o mínimo nas raízes culturais do país, que realmente precisariam de programas de incentivo.
Promovem-se duplas caipiras, cantores de música axé como uma cultura oficial, com dotações de Bancos Oficiais e firmas de economia mista, incentivos fiscais às empresas doadoras, mas quase nada é feito por música antiga do folclore regional, música brasileira como era tocada no fim do século XIX, comédias de costumes e livros formativos, tanto da cultura brasileira quanto derivados dos mananciais originais, em Portugal, França e Áustria.
É sempre a mesma ladainha. “Se não for a Yvete Sangalo ou algum “punk”ninguém vai ao concerto”. A resposta naturalmente é que se façam ciclos de concertistas menores, em salas de espetáculo pequenas, trabalhos mais dedicados à memória. Lembro-me do Projeto Pixinguinha. Um projeto de baixo custo, longa duração e que atravessou o Brasil.
A mesma coisa é válida para autores. Se Jorge Amado, que pessoalmente acho repetitivo, com apenas uns quatro livros notáveis, é um escritor que poderia ser um Prêmio Nobel, por que um Ministério da Cultura não providencia edições de bolso de suas obras, à base de menos que R$ 10 cada. Por que as obras de Machado de Assis (outro que teria merecido o Nobel se já existisse), Érico Veríssimo e outros não são publicadas nesse nível de preço.
Por que não há CDs de Heckel Tavares, Francisco Mignone Villa Lobos, música do Vale do Parnaíba, Módinhas de Minas Gerais, Música de Seresta disponíveis a R$ 5.
Além disso, as obras básicas dos compositores universais como Bach, Beethoven, Lizst e outros.
Parece-me que a Cultura no Brasil tornou-se mais um item que depende de uma familiaridade com os corredores do poder para que se divulgue. É um mercado sem uma avaliação do que seria importante para gerar uma infra-estrutura culta para as pessoas que estão dando duro para sair da pobreza e galgar posições.
Lembro que por volta de dos anos sessenta havia um estoque de discos e livros, talvez ainda contratados nos anos antes dos militares, que eram distribuídos pelo MEC (Ministério de Educação e Cultura) a quem demonstrasse interesse. Até o ano de 1969 sei que ainda havia essa distribuição. Depois perdi este tipo de assunto de vista. Posteriormente havia concertos públicos como os do Maestro Karabschevsy que percorriam o país inclusive divulgando grupos como o Musikantiga e Quinteto Armorial ou a banda de Pífaros de Caruaru.
Essencialmente isto demonstra que quarenta anos atrás fazíamos mais pela cultura de raiz, sobre a qual se constrói sensibilidade e criatividade do que hoje.
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