Ricardo Leopoldo, da Agência Estado
SÃO PAULO - A ata da última reunião do Copom "não convenceu" sobre a decisão de mudar subitamente a trajetória dos juros e seria boa para explicar a manutenção da taxa Selic em 12,50%, mas não a redução para 12%, comentou nesta quinta-feira, 8, o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman. "O documento mostra que a inflação está ao redor da meta em 2012 e não abaixo, com juros a 12,50% ao ano. Portanto, a redução da Selic não se justifica", comentou. "Não tenho a menor dúvida de que as expectativas relativas ao IPCA para o próximo ano continuarão subindo e devem alcançar 5,5% bem rápido", disse. Como acredita que a economia mundial não entrará no "colapso visualizado pelo BC", ele diz que a inflação no Brasil deve continuar em alta, o que levará o Copom a retomar a alta de juros no início do próximo ano.
Para Schwartsman, o BC trabalha com a "hipótese" de que o mundo vai entrar em recessão no curto prazo, o que não é um fato ainda e não está no radar da maioria dos especialistas, grupo do qual ele faz parte. Na sua avaliação, deve ser observada com boa dose de cautela a manifestação do cenário alternativo registrada no parágrafo 18 da ata, no qual o Copom cita que um modelo de equilíbrio geral dinâmico estocástico (cuja sigla é Samba em inglês) indica que a piora da economia global pode gerar um impacto ao Brasil "equivalente a um quarto do impacto observado durante a crise internacional de 2008/2009."
Nos cálculos do ex-diretor do BC, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) indicou uma queda de 5,7% do PIB entre setembro de 2008 e março de 2009. Portanto, levando em consideração a avaliação do BC, o efeito negativo da crise mundial sobre o Produto Interno Bruto (PIB) ficaria próximo a 1,425 ponto porcentual, provavelmente num horizonte de 12 meses. "Contudo, a recessão mundial ainda não ocorreu e muitos duvidam que de fato aconteça", destacou.
Chamou a atenção de Schwartsman o BC ter destacado que as projeções do cenário de referência indicam o IPCA para 2012 ao redor da meta, um resultado mais favorável que o exibido pelo relatório de inflação de junho, no qual constava a estimativa de 4,8% para o índice de inflação no próximo ano. Segundo ele, o que pode explicar esta mudança seria uma avaliação mais favorável sobre o hiato do produto, pois não ocorreram mudanças benéficas sobre a inflação corrente, expectativas para o IPCA e câmbio. O parágrafo 25 da ata relata que "o nível de utilização da capacidade instalada tem recuado e se encontra abaixo da tendência de longo prazo, ou seja, está contribuindo para a abertura do hiato do produto e para conter pressões de preços."
Schwartsman pondera com ceticismo as indicações do BC segundo as quais os riscos para a inflação nos próximos trimestres baixaram também em razão da política fiscal mais apertada do governo. No parágrafo 14, o Banco Central afirma que considera o cumprimento da nova meta de superávit primário, de cerca de 3,15% do PIB, sem ajustes. Para 2012, o BC admitiu como hipótese de trabalho que aquela poupança do Orçamento alcançará 3,10% do PIB. Pela primeira vez, uma ata do Copom manifestou quanto espera de superávit primário para 2013 - 3,10% do PIB, sem descontos de investimentos públicos. "A questão fiscal sempre precisa ser vista com dúvidas. O aumento do superávit primário deste ano de R$ 10 bilhões foi obtido com uma elevação de receita de R$ 15 bilhões", afirmou.
Segundo Schwartsman, como ele não acredita que o mundo vai entrar num processo agudo de retração, o que estaria no cenário do BC, a inflação deve continuar forte no Brasil. Ele projeta que o IPCA subirá 6,4% neste ano e deve ficar entre 5,5% e 6% em 2012.
Na sua opinião, o Copom deverá reduzir a Selic até 11% neste ano. Contudo, ele aponta que o Banco Central vai verificar que o IPCA não convergirá à meta de 4,5% e vai voltar a subir os juros no início do ano que vem. Para ele, a Selic fechará 2012 entre 12% e 13%. "O BC vai perceber que o cenário de colapso não ocorreu e para conter a inflação precisará subir os juros novamente", comentou.
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